quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Infância


                                                                      
Será que lembro ainda! Talvez em flashes... Mas tentarei prosar o que passei. Infância boa, abastada de brincadeiras e guloseimas. Mas por onde começar não estou a lembrar as idéias estão embaralhadas.
Xi... Se da concepção, essa não... Não vou recordar. Mas sei que saí de um beijo e o resto cês sabem, não preciso falar. Minha mãe muito linda e meu pai muito galante, e o que saiu? Eu a figurante!
Dizem que não nasci no caminho por um triz. Eita que pressa danada de sair pro mundo à galopada. Contam que era bem calminha, dormia como um anjinho depois das mamadas.
Aos seis meses de vida quase morri, fui salva por uma alma caridosa que me pendurou pelos pés e com duas palmadas me tirou da morte, sufocada por coqueluche desenfreada. Mas não era a hora, tinha muito que viver e contar minha história.
Lembro sempre de jardins e casas grandes, muita correria de esconde-esconde. Gostava de água, torneiras de jardim era piada e todas bem apertadas. Já sabiam que eu era uma danada. Vestir um vestido, que sacrifício! Todos bordados, rendados e cheio de bicos engomados, como espinhavam...
Lembro de seu João, um negão de dois metros, que todos os dias em casa de meus avós passava.  Contava as horas... Por ele ser grande me colocava nos braços a rodar a casa. Subia no galinheiro, nas árvores e muros altos e minha madrinha por perto a dizer: O que será dessa menina quando crescer! E eu cá comigo... Adola num telo saber.
Andar de trem Ah! Como gostava, rolete de cana e cocada. Doce de leite que delicia! E bananada. Quebra queixo de todos os sabores, pirulito de tábua, suspiro, nego bom, canudinho e rabanada.
O leite chegava cedinho no lombo de um burrico, bem quentinho e fresquinho e não tínhamos nada, nossas faces eram coradas como dois tomatinhos. Enquanto isso a chaleira fervia e apitava, estava a sair um café quentinho que na esquina cheirava. Às duas da tarde vinha o mascate que vendia de A Z tudo o que se precisava dentro de casa. O carteiro todos os dias pontualmente no jardim adentrava, tirava o chapéu e dizia: boa tarde senhores e senhoras só pude vir agora!
E assim caminhavam os dias. Nas festas juninas minha avó caprichava. Pamonha, pé-de- moleque, mugunzá, canjica, milho cozido e assado deixando todos empanzinados. E a folia rolava noite a dentro ao som de sanfonas e muito xaxado.
Dormir em rede adorava! E nunca tive problemas de coluna, costela caída ou espinhada. Até entrar na escola a vida foi assim sempre animada e para tal, tínhamos que saber de cor a cartilha e a tabuada. Um tempo muito bom com a vida descomplicada.
Cresci no seio da família entre as casas de meus pais e de meus avós. No interior onde morávamos a brincadeira era acelerada, pião, papagaio, bola de gude, bodoque, carrinho de rolimã, queimado, brincar com os meninos era mais animado. Eu brigava ia as tapas e defendia meu reinado. Minha mãe gritava: Menina vem cá, parece um machão que estou a criar. Respondia calada: a senhora é quem pensa brincar com meninos é mais salutar e corria estabanada. As bonecas da época que horríveis, pareciam entaladas de tão duras não sentavam. E eu pensava, mas que brincadeira boba a minha é mais animada.
Primeira comunhão de minhas irmãs que festança, buchada e muita comilança. O bode amarrado no fundo do quintal e meu irmão a cutucar, de repente o corre corre, o bode soltou-se e desembestou-se. Ai ai ai... que confusão pegar esse  bode não foi brinquedo não. Mas a festa rolou e no dia seguinte na panela o bode entrou.
A casa tinha um enorme quintal com árvores frutíferas, subir até o olho era uma delícia, sensação de perigo e liberdade já naquela idade.
Lembro-me de um temporal e cinco crianças às escuras com velas na mão, trovão, raio o diacho, chuva forte de meter medo no tacho.
Bem meus amigos, hoje paro por aqui, nos próximos dias pretendo seguir a contar minha história buscando na memória o que já vivi.
Monica Lima 03/09/12

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